"Nenhum
lucro é legítimo quando não se dirige ao objetivo da promoção integral da
pessoa humana, o destino universal dos bens e a opção preferencial pelos pobres", afirma um documento do
Vaticano intitulado “Oeconomicae et quaestiones
pecuniariae”, divulgado no passado dia 17 de maio.
“Nunca como hoje, as
temáticas económicas e financeiras atraem a nossa atenção, em virtude do
crescente impacto que o mercado exerce em relação ao bem-estar material de boa
parte da humanidade.” – assim começa
o documento. "É hora de iniciar a recuperação do que é
autenticamente humano, para expandir os horizontes da mente e do coração",
observa. "É dever dos agentes
competentes e das pessoas responsáveis desenvolver novas formas de economia
e finanças, com regras e regulamentos para o progresso do bem comum".
O
documento, cujo subtítulo é "Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspetos
do sistema económico-financeiro atual", refere que o sistema económico deve
"visar, acima de tudo, a promoção da
qualidade de vida global que, antes da expansão indiscriminada dos lucros, leva
ao bem-estar integral de cada um e da pessoa como um todo".
Enquanto
o documento reconhece que muitos investidores são "animados por intenções boas e corretas", afirma também que
os mercados
globais se tornaram "um lugar onde o egoísmo e o abuso de poder conseguem prejudicar muito a
comunidade”. Além
disso, afirma que, embora algumas técnicas de criação de riqueza moderna não
sejam "diretamente inaceitáveis do
ponto de vista ético", podem ser "exemplos próximos à imoralidade, ou seja, geram o tipo de abuso e
engano que pode prejudicar as partes menos favorecidas".
O
documento é mais enfático ao falar do modo como se dá a formação dos que gerem
o sistema financeiro, dizendo que "o objetivo de meramente gerar lucro cria uma
lógica perversa e seletiva que muitas vezes favorece o avanço de empresários
muito capacitados, mas ambiciosos e sem escrúpulos". Essa
formação, diz o documento, ajuda a "criar
e difundir uma cultura profundamente amoral - na qual, muitas
vezes, não se hesita em cometer um crime quando os benefícios previstos
ultrapassam a pena esperada". "Esse comportamento polui gravemente a saúde de todo sistema económico-social,põe em perigo a funcionalidade e prejudica em grande medida a
realização eficaz do bem comum, sobre a qual se baseiam todas as
formas de instituição social".
Dentre
as práticas financeiras mais criticadas está o uso de contas no exterior para evitar a tributação sobre o património.
"Hoje, mais da metade do mundo
comercial é orquestrado por pessoas notáveis que reduzem sua carga tributária ao
transferir a receita de um local para o outro. Parece evidente que todos
removeram recursos consideráveis da economia real e contribuíram para a criação
de sistemas
económicos baseados na desigualdade".
"A evasão fiscal por
parte dos principais interessados, os grandes intermediários financeiros, que
se movem no mercado, indica uma remoção injusta de recursos da economia real, o
que prejudica a sociedade civil como um todo", acrescenta.
O
documento conclui chamando as pessoas, até mesmo os consumidores ainda modestos,
a trabalhar no sentido de tornar o sistema financeiro mais justo. "Diante da solidez e da abrangência dos sistemas económico-financeiros atuais, poderíamos sentir-nos tentados a nos deixar levar pelo cinismo e achar que com a pouca força que
temos pouco pode ser feito”,
observa. "Na realidade, cada um de
nós pode fazer muito, principalmente se não ficarmos sozinhos".
“Não se fala apenas de garantir a comida ou
um decoroso sustento para todos, mas prosperidade e civilização nos seus múltiplos aspetos. Isto
engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho,
porque, no trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano
exprime e engrandece a dignidade da sua vida. O salário justo permite o acesso
adequado aos outros bens que estão destinados ao uso comum.” (Papa Francisco, Evangelli
Gaudium, 192)
“Convencida de que o trabalho
constitui uma dimensão fundamental da existência do ser humano sobre a terra” (Laborem Exercens, 4), a
Igreja coloca-se ao lado dos trabalhadores e trabalhadoras na sua luta por
justiça e dignidade. (…) O trabalho não é mercadoria, mas um modo de expressão
direta da pessoa humana (cf. Mater et Magistra, 18) que, por meio
dele, “deve procurar o pão quotidiano e
contribuir para o progresso contínuo das ciências e da técnica, e sobretudo
para a incessante elevação cultural e moral da sociedade, na qual vive em
comunidade com os próprios irmãos” (Laborem Exercens, Intr.)
Além disso, recorda-nos o Papa Francisco, o trabalho
humano é participação na criação que continua todos os dias, inclusive, graças
às mãos, à mente e ao coração dos trabalhadores: “Na terra, há poucas alegrias maiores do que as que sentimos ao
trabalhar, assim como há poucas dores maiores do que as do trabalho, quando ele
explora, esmaga, humilha e mata”.
Com tão grande dignidade, o
trabalho humano não pode ser governado por uma economia voltada exclusivamente
para o lucro, sacrificando a vida e os direitos dos trabalhadores e
trabalhadoras.
Ao Estado compete cuidar para
que as relações de trabalho se deem na justiça e na equidade (cf. Mater et Magistra, 21).“
(da nota da Conferência Episcopal dos Bispos do
Brasil para a celebração do 1º de Maio de 2018)
Uma TERRA, um TETO, um TRABALHO,
VIDA DIGNA para a CLASSE TRABALHADORA
Assim se intitula a mensagem do Movimento Mundial
de Trabalhadores Cristãos para este dia que pode ser lido AQUI
“O trabalho precário é uma
ferida aberta para muitos trabalhadores, que vivem no medo de perder o próprio
trabalho. Precariedade total. Isso é imoral. Isso mata: mata a dignidade, mata
a saúde, mata a família, mata a sociedade” (Papa Francisco na Semana Social da
Conferência Episcopal Italiana).
O desafio para este Dia
da Terra, que hoje se celebra, é a eliminação da poluição causada pelo
plástico que ameaça o nosso mundo.
São produzidos atualmente cerca de 300 milhões
de toneladas de plástico por ano, dos quais 8 milhões de toneladas vão parar aos oceanos.
No Oceano Pacífico, entre o Havai e a Califórnia, há uma grande
ilha que é formada por plástico. São 79 mil toneladas de
lixo que ocupam uma área de 1,6 milhões
de quilómetros quadrados -17 vezes o tamanho de Portugal.
São 1,8 mil milhões de objetos. Embalagens,
sacos, garrafas, tampas, cordas, redes de pesca, cotonetes, palhinhas …. E todos estes plásticos, através
dos peixes, chegam à cadeia alimentar humana.
A organização Ocean
Conservancy estima que, em menos de 10 anos, existam 250 milhões de
toneladas de plástico nos oceanos, sendo que em 2050 poderá haver mais
plásticos que peixes, caso nada seja feito.
Todos sabemos o enorme papel que o plástico desempenha no
nosso modo de viver e, por isso, a dificuldade de nos vermos livres dele. Mas
todos podemos contribuir para parar esta crise
do plástico:
1) Diga “não, obrigado”: uma forma realmente fácil de
reduzir o seu consumo de plástico é recusá-lo quando lhe for oferecido. Recusar
as palhinhas em restaurantes e bares, evitar artigos que tenham embalamento
plástico, recusar os sacos plásticos adicionais ao comprar produtos frescos…
2) Acabe com a utilização única: evite usar artigos descartáveis,
como sacos para transportar compras, copos, pratos ou garrafas de plástico…
3) Reciclar, sempre: antes de colocar o plástico no
lixo verifique sempre se pode ser reciclado…
4) Escolha as suas marcas: não compre às cegas, procure
produtos de marcas que se preocupem com a sustentabilidade ambiental…
5) Passe a palavra: procure sensibilizar os que
estão à sua volta para a importância de reduzir ao máximo o consumo de
plástico…
O
Dia da Terra é uma oportunidade para
refletir sobre como as nossas ações afetam a nossa saúde e o meio ambiente em
que vivemos. A responsabilidade de proteger o planeta é de TODOS. A poluição de
plástico não vai desaparecer de um dia para o outro, mas se cada um de nós der
pequenos passos para reduzir o consumo de plástico e o desperdício, poderemos
fazer uma grande diferença.
A intensificação dos conflitos e a seca persistente em várias
regiões do mundo fizeram subir para 124 milhões, em 51 países, o número de
pessoas que passaram fome em 2017, segundo as estimativas divulgadas pelo
"Relatório Mundial sobre as Crises Alimentares 2018", publicado no passado dia 22 de Março, pela
União Europeia, Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura
(FAO) e Programa Alimentar Mundial (PAM). Um aumento de 11 milhões de pessoas
afetadas em relação a 2016.
Nota da Comissão Nacional Justiça e
Paz no Dia Internacional da Mulher
– 8 de março de 2018
Os
homens, as mulheres e as crianças da terra — são eles que formam os povos —
constituem a vida do mundo que Deus ama e deseja salvar, sem excluir ninguém.(…)
A aliança entre o homem e a mulher é chamada a ter nas suas mãos a direção da
sociedade inteira. Este é um convite à responsabilidade pelo mundo, na cultura
e na política, no trabalho e na economia. (Papa Francisco)
Pertencemos a uma civilização que
elegeu a dignidade de cada pessoa como estruturante da sua organização, que
consagrou a igualdade entre homens e mulheres como direito fundamental. A sua
realização é determinante para o desenvolvimento e sustentabilidade das
comunidades. Este é, aliás, um compromisso assumido a todos os níveis,
internacional, regional e nacional. O seu incumprimento representa uma tremenda
violação de valores fundamentais e um tremendo risco ecológico.
Sob o impulso das Nações Unidas, do
Conselho da Europa, da União Europeia e da União Interparlamentar fizeram-se
aprovar ao longo dos últimos cem anos múltiplas convenções, recomendações,
plataformas, enfim, um vastíssimo conjunto de instrumentos, todos eles
complementares, reguladores, concretizadores, assentes no bem que é a liberdade
de se ser igual, de se ser par entre pares, de se ser plenamente.
Todos estes instrumentos tiveram
reflexos e tradução normativa no ordenamento jurídico português, no âmbito do
direito constitucional, civil, laboral e penal, constituindo-se assim como
motor essencial das transformações legais, sociais e culturais que se operaram
nestes últimos anos.
Os direitos fundamentais e em especial
o princípio da igualdade entre mulheres e homens bem como a proteção contra a
discriminação nas suas múltiplas vertentes foram assumidos como irreversíveis.
Contudo, e apesar desta determinação,
a sua concretização é lenta e a realidade evidencia persistentes assimetrias e
desigualdades, frequentemente geradoras de retrocessos: a especial
vulnerabilidade de meninas e mulheres face à violência, que leva a que sejam
mais de 80% das vítimas de violência doméstica, a remuneração desigual,
traduzida em cerca de 17% menos que a dos homens, a maior incidência da
pobreza, com significado mais expressivo para as mulheres mais velhas (com
pensões cerca de 31% mais baixas que as dos homens) ou que assumem sozinhas o
sustento das suas famílias, a jornada diária de trabalho (remunerado e não
remunerado) penalizada em cerca de mais de uma hora que a do homem, o difícil
acesso aos lugares de decisão nas empresas e na política.
A igualdade, e o consequente combate a
todas as formas de discriminação que a impedem, só pode ser conquistada pelo
trabalho diário, próximo, consciente de cada realidade pessoal, combatendo a
indiferença, devolvendo visibilidade de forma a que ninguém seja deixado para
trás.
Em outubro de 2017, o Papa Francisco,
no seu discurso aos participantes na assembleia geral dos membros da Pontifícia
Academia para a Vida, afirmou: …Não se
trata simplesmente de oportunidades iguais, nem de reconhecimento recíproco.
Trata-se sobretudo de entendimento entre homens e mulheres, sobre o sentido da
vida e o caminho dos povos. …Trata-se antes de tudo de reconhecer com
honestidade os atrasos e as faltas. As formas de subordinação que tristemente
marcaram a história das mulheres devem ser abandonadas de maneira definitiva.
Um novo início deve ser escrito no ethos dos povos, e isto só pode ser feito
por uma renovada cultura da identidade e da diferença.
A Comissão Nacional Justiça e Paz,
neste dia 8 de março, reconhecendo as conquistas que se foram fazendo na
correção das desvantagens estruturais que gravemente recaem sobre as mulheres e
ferem a sua dignidade, não pode deixar de assinalar o longo e difícil caminho
ainda a percorrer na remoção da indiferença e da invisibilidade, na eliminação
das múltiplas formas de discriminação refém de preconceitos, na conquista da
igualdade, e faz-se eco do apelo à revolução
cultural que nas palavras do Papa Francisco se apresenta no horizonte da história desta época.
Os Direitos Humanos não são um mero
ideal abstrato. São um compromisso de toda uma civilização, de toda uma
comunidade em nome da justiça e da paz, para que a justiça e a paz sejam uma
realidade na vida de cada pessoa.
Poema de D. Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do
Araguaia, Brasil que completou ontem 90 anos.
D. Pedro Casaldáliga nascido
em Balsareny, região da Catalunha, foi para o Brasil e, em 1968, mergulhou na
Amazônia. Nomeado bispo de São Félix do Araguaia, adotou como divisa princípios
que haveriam de nortear literalmente sua atividade pastoral: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir,
nada calar e, sobretudo, nada matar”. No seu primeiro ano de episcopado (1971)
escreve o manifesto, a primeira carta pastoral“Uma
Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social” denunciando o trabalho escravo na região, tornando-se uma referência para os
movimentos de oposição à ditadura brasileira. Pastor de um
povo ameaçado pelo trabalho escravo, tomou-lhe a defesa, entrando em choque com
os grandes fazendeiros, as empresas agropecuárias, mineradoras e madeireiras. Poeta
e revolucionário, pastor dos negros e dos indígenas. Cinco vezes réu em
processos de expulsão do Brasil e frequentemente ameaçado de morte. Continua
hoje morando numa casa humilde em São Félix do Araguaia, com o seu “irmão
Parkinson” – como costuma dizer.
“Isto é o
Inferno. Hoje nos nossos dias, o Inferno deve ser assim, um lugar grande e
vazio, e nós cansados de estar de pé, com uma torneira a pingar água que não se
pode beber, esperamos algo sem dúvida terrível e nada acontece e continua a não
acontecer nada. Como pensar? Já não se pode pensar, é como estar já morto”
- Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz
Neste
dia, há 73 anos, foi libertado o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, .
símbolo maior da barbárie nazi. Um milhão e meio de pessoas foram ali
assassinadas.
Durante o Holocausto foram mortas mais de 60 milhões de
pessoas em mais de 50 campos de concentração. As vítimas não foram apenas
judeus. Foram presos e torturados membros da oposição, prisioneiros de guerra,
homossexuais, ciganos, pessoas com deficiência. Qualquer pessoa que discordasse
do regime nazi ou que não fosse considerado apto para viver no Terceiro Reich
era levado para os campos de morte e isto incluiu também muitos alemães.
O Holocausto ficou marcado pela morte e sofrimento, mas
também pela inação e indiferença das pessoas. Como foi possível? O mundo sabia e não fez nada. A
propaganda do regime nazi, apoiada em sentimentos de frustração e injustiça,
conseguiu mobilizar a opinião pública e exacerbar o ódio e a intolerância,
fazendo com que as pessoas perdessem os seus valores enquanto seres humanos.
Neste dia recorda-se também que continuam hoje a existir muitos
conflitos e injustiças, alguns novos holocaustos, que são possíveis pela apatia
e inação da grande maioria das pessoas. Edmund Burke disse “A
única coisa necessária ao triunfo do mal é que os homens bons não façam nada”.
A
Turquia acolhe 4,2 milhões de migrantes e
refugiados, dos quais 3,3 milhões são sírios. Desde
Julho de 2015 até 15 de Novembro de 2017, perto de 26 mil pessoas foram
reinstaladas em países europeus a partir da Turquia, ao abrigo de dois
programas da União Europeia (UE). Para Portugal vieram menos de 50 sírios
nestas circunstâncias (a partir da Grécia e de Itália, foram recolocadas em
Portugal cerca de 1500 pessoas).
O ACNUR estima que pelo menos 300 mil pessoas,
cerca de 10% dos refugiados que estão atualmente na Turquia, sejam elegíveis
para reinstalação noutro país. Mas a capacidade de resposta é bem menor do que
as necessidades. Menos de 1% dos refugiados que estão na Turquia vêem os
processos submetidos para reinstalação.
Há refugiados que estão na Turquia há dois, três, cinco anos. A
esmagadora maioria tenta sustentar-se como pode. A legislação turca atual
prevê que os refugiados possam trabalhar, mas as licenças são difíceis de obter
e uma larga fatia continua à mercê do mercado de trabalho paralelo – que paga
quando quer, o que quer, se quiser.
Há uma pirâmide de dificuldades para os refugiados
que estão atualmente na Turquia: a língua, o acesso efetivo à educação, à saúde
e ao mercado de trabalho, a necessidade de recurso ao trabalho infantil, a
falta de informação sobre direitos e deveres.
São dessas dificuldades que falam as vidas de Rateb
e Daniah, Alaa, Ghossoun,
Rania, Moussa, da família Jabo ou da família MohammedLER AQUI
"Com
espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome
ou se vêem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações,
perseguições, pobreza e degradação ambiental.
Estamos
cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros. Há
muito que fazer antes de os nossos irmãos e irmãs poderem voltar a viver em paz
numa casa segura. Acolher o outro requer um compromisso concreto. (...)
Em
muitos países de destino, generalizou-se largamente uma retórica que enfatiza
os riscos para a segurança nacional ou o peso do acolhimento dos
recém-chegados, desprezando assim a dignidade humana que se deve reconhecer a
todos, enquanto filhos e filhas de Deus. Quem fomenta o medo contra os
migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia
violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande
preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos. (...)
Todos
os elementos à disposição da comunidade internacional indicam que as migrações
globais continuarão a marcar o nosso futuro. Alguns consideram-nas uma ameaça.
Eu, pelo contrário, convido-vos a vê-las com um olhar repleto de confiança,
como oportunidade para construir um futuro de paz.(...)
Oferecer
a requerentes de asilo, refugiados, migrantes e vítimas de tráfico humano uma
possibilidade de encontrar aquela paz que andam à procura, exige uma estratégia
que combine quatro ações: acolher, proteger, promover e integrar."
(Da mensagem do Papa Francisco para o 51º Dia Mundial da Paz)
“Hoje, o contexto de crise económica,
infelizmente, favorece o emergir de comportamentos de hostilidade e de não
acolhimento. Nalgumas partes do mundo erguem-se muros e barreiras. [...]
Contudo o fecho não é uma solução, pelo contrário, acaba por favorecer os
tráficos criminosos. A única solução é a solidariedade. Solidariedade com o
migrante, solidariedade com o estrangeiro” - Papa Francisco
Nestas festas natalícias, serão oferecidos smartphones
para cães e impressoras 3D de panquecas que
lhe permite comer, todas as manhãs, a Mona Lisa, o Taj Mahal ou o traseiro do
seu cão. Por tralhas como essas estamos transformando em lixo oplaneta vivo e as nossas próprias
perspetivas de vida. Tudo isso precisa acabar. Há alternativa: uma vida privada
frugal e bens comuns refinados. Quem se atreve?
A promessa de luxo privado para todos não pode ser cumprida: não existe nem
espaço físico nem espaço ecológico para isso
Todo mundo quer tudo – como é que isso pode dar certo?
A promessa do crescimento económico é de que os pobres poderão viver como ricos; e os ricos, como oligarcas. Mas nós já estamos atingindo os
limites físicos do planeta que nos sustenta. Desastres climáticos, desertificação do solo, colapso de habitats e espécies, mar de plástico: tudo causado
pelo excesso de consumo.
Mas o crescimento deve
continuar: esse é o imperativo político em todos os lugares. E temos de ajustar
os nossos gostos, em nome da autonomia e da escolha – o marketing usa as últimas descobertas da neurociênciapara destruir nossas defesas. Em cada geração, muda a
referência doconsumo
normalizado. Há trinta anos, era ridículo comprar água em garrafa, pois
a água de torneira é limpa e abundante. Hoje, no mundo todo, usamos um milhão
de garrafas plásticas em cada minuto.
Quem se identifica como consumidor consciente usa mais energia e carbono do
que quem não se assume como tal
A promessa é que, pelo consumismo verde, podemos reconciliar crescimento perpétuo com sobrevivência planetária. Mas uma
série de pesquisas revela que não há diferença significativa entre as pegadas ecológicas de pessoas que cuidam e que não cuidam dos
seus impactos. Quem se
identifica como consumidor consciente usa mais energia e carbono
do que quem não se assume como tal. Porque a consciência ambiental tende a ser mais alta entre pessoas ricas. Não são as atitudes,
mas o rendimento que
determina nossos impactos no planeta. Quanto mais ricos, maior a
nossapegada, a
despeito das nossas boas intenções. Aqueles que se vêem como consumidores verdes, dizem as pesquisas,
“focam principalmente em comportamentos que têm benefícios relativamente
pequenos”. Nada disso significa que não devemos tentar
reduzir nossos impactos,
mas precisamos ter consciência dos limites desse exercício. Nosso comportamento
dentro do sistema não consegue mudar os resultados desse sistema. É o sistema
que precisa de ser mudado.
Uma pesquisa da Oxfamsugere que o 1% mais rico produz 175 vezes mais
carbono que os 10% mais pobres. Como podemos, num mundo em que supostamente
todos aspiram a altos rendimentos, evitar transformar a Terra numa bola de sujeira, da
qual depende toda a prosperidade?
Empresas e governos são todos procuradores do verdadeiro problema:
crescimento perpétuo num planeta que não está crescendo
Aqueles que justificam esse sistema insistem em que
o crescimento
económico é essencial para o alívio da pobreza. Mas um artigo da World Economic Reviewafirma que os 60% mais pobres do mundo recebem apenas 5% do rendimentoadicional gerado
pelo aumento doPIB.
Disso resulta que são precisos 111 dólares de crescimento para cada dólar de redução da pobreza. Essa é a razão por que, seguindo a tendência atual,
seriam necessários 200 anos para garantir que todo o mundo receba 5 dólares por
dia.
A essa altura, arenda média per capita terá alcançado 1 milhão de dólares por
ano, e aeconomia será
175 vezes maior do que é hoje. Isso não é uma fórmula para alívio da pobreza. É uma fórmula para a destruição de tudo e de todos.
Consumismo verde, crescimento sustentável: isso tudo é ilusão, destinada a
justificar um modelo económico que nos está conduzindo à catástrofe
Quando você ouve que alguma coisa faz sentido do ponto de vista económico, isso
significa que é o oposto do senso comum. Aqueles homens e mulheres sensíveis
que governam os tesouros e bancos centrais do mundo, que vêem como normal e
necessário umcrescimento indefinido
do consumo, estão alucinados, esmagando as maravilhas do mundo vivo, destruindo
a prosperidade das gerações futuras para sustentar um conjunto de números que
têm uma relação cada vez menor com o bem-estar geral. O sistema atual, baseado emluxo privado e imundície pública, vai nos levar à
miséria: sob esse modelo, luxo e privação são uma só besta com duas cabeças.
Necessitamos de um sistema diferente, enraizado não
em abstrações económicas mas
em realidades físicas, que estabeleça os parâmetros pelos quais nós possamos julgar
da sua saúde. Necessitamos construir um mundo no qual o crescimento não seja um
imperativo, um mundo de frugalidade privada e luxo público.
(O artigo é de George Monbiot, jornalista, escritor e ambientalista do Reino Unido,
publicado por The Guardian.)
O Dia dos Direitos Humanos, lembrado a 10 de dezembro, marca
a data em que, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi
proclamado pela Assembleia Geral da ONU.
Os direitos
humanos são direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de
raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição.
A
Declaração Universal chega aos seus 70 anos de existência num tempo de desafios
crescentes. O ódio, a discriminação e a violência estão por todo o lado.
Centenas de milhões de homens e mulheres estão privados das condições básicas
de subsistência e de oportunidades. São chocantes as notícias sobre as novas
formas de escravatura. As deslocações forçadas de muitos milhões de pessoas em
todo o mundo geram violações dos direitos humanos numa escala sem precedentes.
São visíveis os retrocessos de direitos humanos, incluindo os direitos das
mulheres e de muitas minorias, nas Américas, na Ásia, na África e até na
Europa. Estamos a testemunhar, em diversas partes do mundo, à destruição de
medidas destinadas a acabar com a discriminação e a promoção duma maior
justiça.
“As Nações Unidas tem proclamado extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?” – Eduardo Galeano
Declaração Universal dos Direitos
Humanos
Artigo 1:Todos os seres humanos nascem livres e
iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir
em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
Artigo 2: 1. Todo ser humano tem capacidade para
gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção
de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião
política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento,
ou qualquer outra condição. 2. Não será também feita nenhuma distinção fundada
na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que
pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela,
sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.
Artigo 3:Todo ser humano tem direito à vida, à
liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4: Ninguém será mantido em escravidão ou
servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas
formas.
Artigo 5: Ninguém será submetido à tortura, nem
a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
Artigo 6: Todo ser humano tem o direito de ser,
em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.
Artigo 7:Todos são iguais perante a lei e têm
direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a
igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e
contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 8:Todo ser humano tem direito a receber
dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os
direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.
Artigo 9: Ninguém será arbitrariamente preso,
detido ou exilado.
Artigo 10: Todo ser humano tem direito, em plena
igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal
independente e imparcial, para decidir seus direitos e deveres
ou fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.
Artigo 11: 1.Todo ser humano acusado de um ato
delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade
tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe
tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa. 2. Ninguém
poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam
delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta
pena mais forte de que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato
delituoso.
Artigo 12: Ninguém será sujeito à interferência
na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem
a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei
contra tais interferências ou ataques.
Artigo 13: 1. Todo ser humano tem direito à
liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada
Estado. 2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país,
inclusive o próprio e a esse regressar.
Artigo 14: 1. Todo ser humano, vítima de
perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros
países. 2. Esse direito não pode ser invocado em caso de perseguição
legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos
objetivos e princípios das Nações Unidas.
Artigo 15: 1. Todo ser humano tem direito a uma
nacionalidade. 2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua
nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo 16: 1. Os homens e mulheres de maior
idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito
de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em
relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.
2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos
nubentes. 3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem
direito à proteção da sociedade e do Estado.
Artigo 17: 1. Todo ser humano tem direito à
propriedade, só ou em sociedade com outros. 2. Ninguém será
arbitrariamente privado de sua propriedade.
Artigo 18: Todo ser humano tem direito à
liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a
liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa
religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em
particular.
Artigo 19: Todo ser humano tem direito à
liberdade de opinião e expressão; esse direito inclui a liberdade de, sem
interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e
ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.
Artigo 20: 1. Todo ser humano tem direito à
liberdade de reunião e associação pacífica. 2. Ninguém pode ser obrigado a
fazer parte de uma associação.
Artigo 21: 1. Todo ser humano tem o direito de
tomar parte no governo de seu país diretamente ou por intermédio de
representantes livremente escolhidos. 2. Todo ser humano tem igual direito
de acesso ao serviço público do seu país. 3. A vontade do povo será a base
da autoridade do governo; essa vontade será expressa em eleições periódicas e
legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que
assegure a liberdade de voto.
Artigo 22: Todo ser humano, como membro da
sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional,
pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada
Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua
dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.
Artigo 23: 1. Todo ser humano tem direito ao
trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de
trabalho e à proteção contra o desemprego. 2. Todo ser humano, sem
qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho. 3.
Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória
que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a
dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de
proteção social. 4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a
neles ingressar para proteção de seus interesses.
Artigo 24: Todo ser humano tem direito a repouso
e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias
remuneradas periódicas.
Artigo 25: 1. Todo ser humano tem direito a um
padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde, bem-estar,
inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços
sociais indispensáveis e direito à segurança em caso de desemprego, doença
invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência
em circunstâncias fora de seu controle. 2. A maternidade e a infância têm
direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro
ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.
Artigo 26: 1. Todo ser humano tem direito à
instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e
fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução
técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior,
esta baseada no mérito. 2. A instrução será orientada no sentido do pleno
desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos
direitos do ser humano e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a
compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou
religiosos e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção
da paz. 3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de
instrução que será ministrada a seus filhos.
Artigo 27: 1. Todo ser humano tem o direito de
participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de
participar do progresso científico e de seus benefícios. 2. Todo ser humano tem
direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer
produção científica literária ou artística da qual seja autor.
Artigo 28: Todo ser humano tem direito a uma
ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na
presente Declaração possam ser plenamente realizados.
Artigo 29: 1. Todo ser humano tem deveres para
com a comunidade, na qual o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade
é possível. 2. No exercício de seus direitos e liberdades, todo ser humano
estará sujeito apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o
fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades
de outrem e de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do
bem-estar de uma sociedade democrática. 3. Esses direitos e liberdades não
podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos objetivos e
princípios das Nações Unidas.
Artigo 30: Nenhuma disposição da presente
Declaração poder ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado,
grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer
ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui
estabelecidos.